Fui recebido pelo dono da casa - aquele que estava remexendo as brasas: seu Adãozinho (nunca vou esquecer desse nome). Enquanto eu contava o meu dia, ele já foi oferecendo churrasco, caipirinha, cerveja...
Ali também tinha “antropólogos do senso comum”: seu filho e esposa, a netinha e a “véia” (era assim que ele chamava a mulher dele).
Seu Adãozinho tomara conta daquele ferro-velho durante longa data. Atualmente era seu filho que “tocava” o lugar. Ele (o Adãozinho) estava envolvido num negócio de compra e venda de carros usados.
No dia seguinte, teria que ir para a praia de Capão Novo fazer umas cobranças e me ofereceu - além do lugar para poso - carona para a cidade no dia seguinte.
Fez questão que eu dormisse na residência dele ou de seu filho, porque existiam muitas cobras no meio das latas daqueles carros. Eu agradeci muito e expliquei que, se eu não dormisse ao menos uma noite na minha barraca, a aventura a qual me propus não teria muito sentido (que aquela altura nem eu mais sabia qual era).
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Enfim, depois da janta oferecida pelo seu Adão, fui montar minha barraca atrás da casa do filho dele.
Batia uma brisa, proveniente da imensa lagoa que havia atrás de seu terreno. Só percebi que se tratava de um lago, pelo reflexo da lua no espelho d’água.
Dormi.
Apesar de ter deitado diretamente sobre a grama, sem colchonete, acordei bem. Muito bem por sinal.
Quando saí dá barraca, pude contemplar o que antes apenas observara pelo reflexo do luar: a lagoa. Saquei da mochila a câmera fotográfica (analógica, ainda) e tratei de fotografar-me diante daquela paisagem.

Ok. Da paisagem não consegui muita coisa, mas gostei muito da foto.
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Fui até a casa do seu Adãozinho.
Adão: “- Dormiu bemmmm meu filho?”. (ele tinha o hábito de prolongar os fonemas de algumas palavras).
Hélius: “- Sim senhor. Muito bem.”.
Adão: “- Não ficou com medo das cobras?” (perguntou com um sorriso sarcástico no canto da boca).
Hélius: “- De modo algum. A barraca estava bem fechada.” (também dei risada).
Adão: “- Que bom meu filho... já tomou café? Quer uma canjiquiiiiiiinha?”.
Hélius: “- Olha seu Adão: a canjiquinha eu lhe agradeço, mas um cafezinho iria muito bem...”
Adão: “- ÔÔÔ véia: serve um café pro moço...como é mesmo teu nome, meu filho?”.
Hélius: “- Hélius.”.
Adão: “- Hélio?!?!”.
Hélius: “- Quase isso seu Adão. É: H-É-L-I-U-S, com U-S no final”.
Adão: “- Ah bão. Então senta aí Hélio, que já sai o café.”.
Tem gente que não esquece o gosto do café da vó. Eu também não esqueço. Os especialistas comentam que a água influencia na composição do mesmo. Então, quando tomamos café em locais diferentes daqueles aos quais estamos acostumados a beber, é natural sentirmos uma leve diferença em seu sabor. Em outras vezes, a rede de saneamento de onde vem a água, não é a mesma daquela região aonde você vive. Esse seria o fator que deixaria aquele café com um sabor único.
Se foi a água eu não sei, mas o café da “véia” do seu Adãozinho lembrou-me muito o café da minha avó.
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Antes de sairmos para Capão Novo, resolvi dar uma espiada na estrada pela qual eu havia perambulado na noite anterior. Fotografei umas árvores - copas imensas - perdidas no meio de todo aquele mato raso que beirava a estrada.

O mais cômico foi, que ao voltar os olhos para o ferro-velho, avistei no terreno ao seu lado, uma placa enorme com os seguintes dizeres: “CAMPING” (não lembro o que mais estava descrito na placa). Não o avistara na noite anterior, pois como já descrevi, a rodovia era muito pouco iluminada... assim, como enxergar a placa do bendito camping?
Ri sozinho.
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Bem... voltei para a minha barraca. Fechei o saco-de-dormir, dei uma organizada na mochila e desmontei meu teto.
Estava pronto.
Despedi-me da “véia”, do filho e da nora do seu Adãozinho, bem como da sua “netiiiiiiinha”.
Então pegamos a estrada.
Pelo caminho, seu Adãozinho foi cumprimentando as pessoas. Parecia ser homem conhecido de muita gente.
Quando adentramos por Capão Novo, ele parou por alguns lugarejos, procurando receber de seus devedores. O velho tinha uma lábia muito boa para cobrar. Era impressionante. Eu ficava quieto no meu banco, só ouvindo.
Na estrada, ele também ficava atento, procurando por carros que estivessem à venda. O homem parecia ter um tino aguçado para o negócio.
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Quando chegamos a Capão da Canoa, eu não sabia orientar como chegar à casa do meu primo. Fazia muito tempo que eu não ía para lá e esquecera do caminho. Então liguei para o “Zeca” (meu primo). Era por volta do meio-dia. Mesmo assim, interrompeu seu almoço, pegou sua moto e foi até aonde estávamos para guiar o seu Adãozinho.
Chegando à casa do Zeca, peguei minhas coisas no porta-malas do carro do seu Adãozinho. Saquei minha carteira e fiz menção de pagar pela hospedagem. Ele apenas sorriu e virou a cara para o meu primo, exclamando:
“- Ô Zequiiiiiiinha?!?! Quer quanto pela moto?”
Meu primo deu risada.
Como quem troca de assunto, agradeceu seu Adão pela gentileza de ter me levado até ali, assim como eu também o fiz.
Juntei-me aos meus familiares, almocei e mais tarde fui dar uma volta na beira do mar.
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Enquanto olhava para a ilusão de infinito que o mar proporciona, refletia: quanta coisa se passou em apenas dois dias.

Aquele gesto do seu Adão, de virar a cara e sorrir, me disse muito: hospitalidade não se paga. Hospedagem sim.
Sua maturidade, proveniente da escola da vida, lhe propiciava uma tranqüilidade tal e qual, é possível observar somente em poucas pessoas que passam por nossas vidas.
Não conversei muito sobre sua vida particular. Couberam apenas especulações: talvez trabalhara a vida inteira no ferro-velho e agora deixara-o para o filho tomar conta. Homem ativo que sempre foi, não conseguira ficar parado e deu um jeito de continuar trabalhando, fazendo o que gosta: trocar coisas. Comprar e vender. Ao invés de ferro-velho, agora carros usados.
Saí de Caxias do Sul para encontrar na BR-101, um homem cujo prazer estava na profissão com a qual eu estava desiludido: vendedor.
Ironia do destino?
Não sei..., mas essa experiência valeu para eu reformular muita das minhas representações, bem como, conseguir decidir àquilo que eu deveria fazer quando eu voltasse ao trabalho.
F I M
Ah... de 2005 pra cá, eu fui poucas vezes à praia (agora de carro ou ônibus, não mais a pé). Nessas poucas idas, passei apenas uma vez pela frente do tal ferro-velho, mas por estar de carona não pude parar para trocar uma idéia com o “seu Adãozinho”. Quem sabe um dia... apenas para dizer: "obrigado... por tudo". Mesmo que ele não mensure do que se trata esse "tudo".
Hélius >>20:04 >>10/12/2008